01 fevereiro 2007

O início do fim

Apesar de não me demitir da minha campanha até ao próprio dia do referendo, confesso que começo a ter dificuldade em refutar incoerências. Se até ao início da campanha oficial havia um certo tento e até bom senso na discussão, agora é o salve-se quem puder - vale tudo, de um lado e de outro.

Ainda está a tempo de salvar muitas vidas. do Não-Obrigada
Como se já não bastassem as chantagens emocionais e os inacreditáveis argumentos financeiros, só faltava mesmo insinuar que as mulheres que optarem pela IVG são assassinas.

Se fosse a despenalização eu concordaria. Mas voto não. a conhecida posição Marcelo
Andamos a brincar? Repito a pergunta do referendo para quem ainda não a leu: "Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"
Não brinquem, o assunto é sério. É contra o julgamento destas mulheres? Sim. Acha que não deviam ser ameaçadas com uma pena de prisão até 3 anos? Sim. É capaz de confiar na mulher para tomar uma decisão? Sim. Então vota não porquê?

Sou contra o aborto, por isso voto não. o argumento mais badalado que se ouve à boca pequena
Contra o aborto, no que diz respeito a interromper uma gravidez, somos todos: os SIM e os NÃO. Se sempre que possível a mulher deve optar, em consciência, levar a gravidez até ao fim? Sim, claro, sempre. Agora, deve a mulher que não quer/não pode assumir uma maternidade consciente, ser punida com uma pena de prisão? Não, nunca.

A legalização provocou um aumento exponencial no número de abortos. as eternas estatísticas do não
Nem sequer vou comentar o abuso da palavra exponencial.
1) Como é que se sabe que aumentou se até à data da legalização a IVG é feita clandestinamente?
2) É desonesto usar dessas estatísticas em causa própria: se há países onde se verificou um aumento também os há onde se verificou um decréscimo. No entanto, olhando para as estatísticas que apenas se referem ao aumento desde a despenalização, há que ter em conta que o exagero invariavalmente sucede a repressão e que em sociedades, ou até mentalidades, nada é instantâneo. Além do mais o aborto clandestino não desaparece do dia para noite - para quem gosta dos gráficos, veja-se o exemplo da França.
3) Há quem evoque, dentro deste tópico da estatística, a taxa de natalidade e/ou o envelhecimento da população. Ora então este argumento é que me mexe com as entranhas - lamento, mas eu, enquanto mulher, não sou nenhuma máquina reprodutora para reposição de stock. Se há quem esteja preocupado por ter médicos e engenheiros no futuro (e devo acrescentar gunas e ladrões) então é livre para fazer o que entender, não pode é exigir-me nada.

Não quer engravidar, que tome precauções. Agora que aguente. a frase mais transversal - do novo ao velho, do rico ao pobre, da direita à esquerda, há sempre quem se saia com esta pérola
Começo por dizer que acho absolutamente repugnante que o acto de ter um filho seja usado como um castigo. Depois, sinto-me na obrigação de salvaguardar, pela enésima vez, que os métodos contraceptivos estão largamente disponíveis - haja vontade em se dirigir a um Centro de Saúde ou farmácia - e podem falhar.
O grande problema neste debate e nesta sociedade é que há quem se recuse a aceitar que os humanos também.

NOTA FINAL: Há alturas em que a minha forma de defender o SIM é mais inflamada, apaixonada até, que outras, no entanto procuro sempre refutar um a um os argumentos que me são apresentados pelo NÃO. Não caí, e espero não vir a cair, no disparate de gozar ou enxovalhar qualquer movimento da opinião contrária à minha. Infelizmente, há quem se diz sério na discussão e, incoerentemente, participe nesse tipo de campanha.

15 comentários:

HC disse...

Off topic (ou não...)

Imagina que passa o sim ...

Uma mulher engravida, é inesperada a gravidez, a mulher quer abortar. Pode faze-lo é legal, ninguem a pode impedir. Mas o pai da criança não o quer fazer. O corpo pertençe a mulher mas o que está dentro dela não. Pertençe aos dois segunda lei! Mas para mim a ninguem. Suponhe que o pai se dispoe a tudo(mesmo tudo!) para a mulher nao abortar, mas ela decide avançar na mesma. Não será penalizada, e segundo a lei o pai não terá direito a contestar. E é nisto que eu penso quando me pedem para libelarizar o aborto. Um dia este Pai posso ser eu...

rup disse...

Então... queres que o pai possa "obrigar" a mulher a ser uma autêntica incubadora é isso? O_O
E acho que não entendi bem a tua noção de "pertença" de um feto... Ora, para carrega-lo durante 9 meses é dela, para escolher se quer abortar já não é?
Já agora, no meio de tanta contestação, um quer um filho, o outro não, será mesmo o melhor ambiente para uma criança nascer?

Paula disse...

@HC: Curto e grosso: o pai pode fazer filhos com outra mulher que os queira, a mulher é que tem que aguentar com o que não quer DENTRO dela - como disse o Rup, eu, enquanto mulher, não sou nenhuma incubadora.
Pela enésima vez, ninguém quer obrigar ninguem a abortar. Só se pede é que as mulheres tenham escolha.

E ainda bem que falaste de ti: se um dia fizeres um filho com alguém, é bom saber que tu o vais assumir e cuidar dele. Mas o mundo não é feito á tua imagem e semelhança.

macnet disse...

acho que dissipaste bem algumas posições defendidas por algumas pessoas / grupos . infelizmente no nosso país onde quase tudo e todos são irresponsáveis senão este países não estava como está acho lamentável que se venha pedir para ser responsavel a uma pessoa que que abortar. pela mesma lógica quem vota nos partidos que arruinam o nosso país também não tem o direito de protestar porque votaram neles , agora que aguentem. é uma estupidez !

estamos no séc. XXI mas infelizmente o nosso país só irá avançar quando algumas gerações desaparecerem. felizmente os jovens actuais pensam mais "à frente" e não se deixam influenciar pela Igreja por exemplo. é sempre preferivel ser influenciada pela boa informação do que de entidades que são contra o uso do preservativo e do aborto.

só mesmo de ignorantes...pela lógica da igreja deve-se levar as gravidez a todo o custo até ao fim. a igreja que é a favor da castidade (mais outra treta) é contra quase todos os meios contraceptivos! não percebo...

espero que o sim ganhe!

HC disse...

@Rup

Não podes obrigar ninguem a nada...e não percebo o argumento da incubadora, nunca verei uma mulher como um objecto. Simplesmente contesto o facto de outro progenitor não ter "voto na matéria" quando falamos em aborto. Nunca disse que durante nove meses seria dela, alias disse que por lei pertencia aos dois! e que a meu ver não pertencia a nenhum dos dois!
E em relação a questão de querer o filho, pensei que estava sub-entendido que o pai ficaria com a criança no final,pois foi ele que a quis ter.

@ Paula

Curto e grosso para ti tb!

Ainda que ela não o queira o pai quer! quer aquele bébé nao outro! quer aquele porque aquele é único! único no universo! o seu adn é unico! Por mais tempo que passe no universo será apenas naquele instante que ele existirá!

E AGORA desculpa-me a franqueza !!!

Nove meses parece-me pouco quando comparado com a vida inteira!

Paula disse...

Tu queres impor aos outros uma forma de pensar tua e isso é que é grave. Tu achas que tens o direito de impor uma restrição a outros que não pensam como tu e a isso eu chamo ditadura.

Para mim uma pessoa não é o ADN. O que me distingue dos outros é o que faço, o que penso e o que sinto, não é a minha impressão digital.

Quanto aos nove meses te parecer pouco, é natural. Para mim um pontapé nos tomates também não me parece nada de especial.

HC disse...

Costuma-se dizer que a liberdade de uns acaba onde começa a dos outros... toda a gente tentar impor as suas opiniões aos outros, restrições na sociedade em que vive. Chama-se a isso leis! e as leis são impostas pelo que a maioria pensa, numa sociedade democratica. Se o sim ganhar foi porque a maioria o quis. Assim será a vontade da sociedade portuguesa. Tenho que acatar a lei enquanto viver nesta sociedade. No entanto não tenho que ser a favor dela.

NUNCA DISSE que uma pessoa era apenas o seu adn, o que eu disse foi que ele é unico para cada pessoa, e como tal cada pessoa única, EM PARTE por "culpa" dele!

Quantos aos nove meses... esqueçe porque o teu argumente é muito bom, e eu empaledeci com a sua GRANDEZA quanto o li!

ps: se eu quisesse impor alguma coisa a alguem era politico! Apenas exponho a minha maneira de ver as coisas. Não preciso de me justificar pelo aquilo em que acredito

Paula disse...

1. O grande problema com a tua teoria é que numa sociedade democrática tambem se respeitam as liberdades dos outros. Mais, numa sociedade democrática as leis são feitas para reger os principios morais da sociedade em que todos sao iguais. Por isso, tens logo á partida um contrasenso: começa logo pelo facto das mulheres e dos homens nao serem iguais nesta matéria e depois é um bocado presunço achar que se tem o dever de interferir na vida dos outros. Porque a tua forma de defender a tua posição é baseada nos *teus* receios, esqueces-te que há mais mundo para além da esfera a que pertences.

2.Disseste que o pai podia querer aquele bébé (e já aqui é um abuso, um embrião com 10 semanas não é um bébé) único no universo, cujo ADN era único. O que te disse foi que o que faz (a meu ver) uma pessoa única é o que faz, o que sente, o que pensa, e não o seu ADN.

3.O meu argumento foi tão válido quanto o teu. Se te achas no direito de opiniar sobre se 9 meses é muito ou pouco sem nunca teres tido o período, sem fazeres a mínima ideia do que é ter um útero, então também me acho no direito de dizer um absurdo proporcional.

4.Ninguém te obriga a justificar, mas quem vai à guerra dá e leva. Entraste na discussão porque és livre de o fazer e eu refutei porque também sou livre de o fazer.

HC disse...

Já te disse que homens e mulheres deviam ser responsabilizados da mesma maneira.

Acredita que muito embora não saiba fisicamente o que é o período, já passei muitos momentos ao lado de uma pessoa que o tem, e quando essa pessoa sofre eu sofro ao lado dela.

Ainda que até as dez semanas possas considerar que não é um "bébé" , para mim não interessa, porque simplesmente será um será humano se não existir interferência.

A minha comparação dos nove meses era em relação a criança, cujo a ligação suponho que nem sequer ponderas-te.

Paula disse...

Espanta-me é que com tanta solidariedade pelo sexo feminino, não sejas capaz de admitir que existem mulheres que:
1. não considerem que ás 10 semanas seja um bébé - não podes usar a lei para impor uma crença tua
2. não podem/não querem levar a gravidez adiante - ou porque já têm filhos ou porque não os querem ter nunca ou por qualquer outra razao que só a elas (e com quem elas quiserem partilhar esta decisão) diz respeito
3. apesar de tomarem todas as precauções, elas podem falhar - e é terrivelmente desumano (para a mulher e para a criança que nasce) impor uma maternidade
4. vão continuar a abortar em condições inacreditáveis porque elas (e com quem elas quiseram partilhar essa decisão) acharam que era o melhor a fazer

Também gostava de entender, a sério que sim, como é que tu que queres ser pai - se é que posso concluir isto do que dizes, se nao posso entao desculpa - ache que os fins justificam os meios e para isso estejas disponivel a, caso a mulher com quem tenhas um filho (vamos admitir acidentalmente) achar que a melhor solução naquele momento e por aquelas razoes, seja interromper a gravidez logo no seu inicio, fazer uma de duas coisas: ou obrigá-la a ser mae do teu filho contra a sua vontade ou a denuncia-la à policia caso ela efectue o aborto de qualquer forma.
A meu ver, a tua forma quase emocionada de defender o embrião também devia ser direccionada para a mulher que o acolhe.

Homem disse...

Consigo admitir isso e muito mais... mas tb sou capaz de perceber que há muito mais em jogo.

Ao contrário do que pensas a minha forma de pensar não é emocionada, mas racional. Se eu acredito que esta vida é unica devo defender uma posição que preveligia essa mesma vida, deixando no entanto em aberto situações, em que tal deve ser deixado para segundo plano.

Paula disse...

Desculpa, mas a tua forma de argumentar (eu nao disse de pensar) é emocionada. Racional seria ser pragmático quando à questão:
.achas que a mulher deve ir para a cadeia? E na lei actual ninguem tem em conta as suas razoes/vontades.
.achas que a lei que existe evita o aborto clandestino? Tambem esta sabido que nao.
Tudo o resto sao juizos de valor e moral que nao estao no referendo.

HC disse...

O jorge disse-me a dias que nenhuma mulher foi para a cadeia por abortar. E sim quando um aborto é efectuado por razões egoistas deve existir algum tipo de repreesão. Não deve ser tempo de cadeia, mas algo deve ser feito, para mostrar que o aborto é errado

Na lei actual ninguem tem conta as suas vontades, na lei que se pretende passar tb não.

A lei de não estacionar nas passadeiras evita alguma coisa?

E eu consigo perceber perfeitamente as repercursões de uma simples cruz. neste caso nao se pode aplicar a pragmatica.

Paula disse...

Felizmente nenhuma mulher está efectivamente na cadeia, mas muitas foram julgadas e condenadas.

"para mostrar que o aborto é errado"?
Toda a gente com 2 dedos de testa (mulheres E homens) sabe que o aborto não é uma diversão. Nao precisas de uma lei que só humilha as mulheres para o mostrar.
E se falas em razoes egoistas vamos voltar outra vez à velha questao de como é que se controla o egoísmo de alguem com uma lei - o código penal é para factos, nao é para adjectivos de bondade ou maldade. O que tu consideras egoísmo eu posso considerar altruísmo e vice-versa.

Na lei que se prentende passar é, pelo menos!, dada a oportunidade à mulher (e a quem ela quiser confiar a partilha desta decisão) de se aconselhar e de, consequentemente, reflectir. Agora não - só é dada a escolha de ir a Espanha, ir a uma clinica privada se tiver dinheiro para isso ou de ir ali ao 3º esq onde a D.Maria aplica uns chás e umas mezinhas.

A lei de nao estacionar?! Tem juizo!

JC Barros disse...

HC:

A defesa do direito do pai a participar na decisão sobre se a mulher deve ou não abortar é muito difícil senão impossível seja com a lei actual ou com a nova.