Arábica

Alfinetes



Os que não cantam não podem sequer imaginar o que é a felicidade de cantar.
Gabriel García Márquez


15 Novembro 2009

Le 8 mm critique - 2012

Eu gosto de filmes catástrofe. É um guilty pleasure consequência directa do que mais gosto no cinema - viver o que não se vive na realidade. A expectativa é sempre baixíssima mas até agora, fosse qual fosse a desgraça e a colossal violação das leis da física, havia sempre entretenimento.

Com 2012 o entretenimento é pura e simplesmente substituído pela mais grosseira tortura.

Ainda antes de passarem 5 minutos de filme, já se ouvem barbaridades sobre neutrinos degenerados que se transformam em micro-ondas - por esta altura já me estava a rir desalmadamente e não entendi bem como é que isto acontece - que fervem o núcleo da Terra.

A partir daqui o filme é todo ele uma catástrofe, a quantidade nauseante de clichés é impressionante: presidente dos estados unidos preto que não abandona a Casa Branca, pai arrependido que não vai a tempo de falar com o filho, o russo bilionário com uma barbie de mamas novas, o piloto do Antonov a subir na vertical para se explodir todo com o avião no chão, o divorciado e falhado escritor que vira herói, o zé ninguém que faz frente ao líderes do G8, a porta da arca que não fecha à última hora, etc etc etc. É um excelente filme de efeitos especiais completamente arruinado por um argumento do mais piroso que alguma vez foi escrito. É um insulto de duas horas e meia à inteligência de qualquer um de tal forma que se os produtores tivessem fumado as notas do orçamento, ficávamos todos mais felizes.

E por mais que me esforçe, por mais que tente, continuo é sem entender porque é que houve quem batesse palmas ao fim do mundo mais azeiteiro de todos os tempos.

O Momento: São todos muito maus.

A Frase: Idem aspas.

27 Outubro 2009

A arma mais eficaz

Há já algum tempo que admiro incondicionalmente o trabalho do Alan Taylor, no The Big Picture, o blog de fotojornalismo do The Boston Globe. Não é a primeira vez que destaco o The Big Picture e com certeza não será a última.

Não há muitos adjectivos para caracterizar este projecto, as fotos falam por si. Esta pertence ao conjunto sobre o Afeganistão. Esta está, como várias outras, absolutamente fabulosa.

Num mundo onde cada vez há mais máquinas fotográficas e menos fotógrafos, vale muito mas mesmo, mesmo muito a pena seguir o The Big Picture.

26 Outubro 2009

Agulhas

Como muitas outras pessoas por esse país fora, acho que esta celeuma toda à volta da gripe A é puro entretenimento. Isto é de tal forma desmesurado que a gripe sazonal deve estar lixada, afinal de contas mata muito mais gente que a A e mediatismo nem vê-lo.

Alguém disse que a religião era o ópio do povo, pois agora por estes meses o ópio tem sido, e ao que tudo indica continuará a ser, a gripe A. Mais ainda quando há uma certa palermice que se instala para dar uma ajuda, como os enfermeiros da Linha Saúde 24 que resolveram fazer birra e uns senhores do PSD que resolveram ser altruístas hipócritas. Porque a vacina ter sido certificada por todas as entidades com legitimidade para o fazerem, ter sido produzida por laboratórios especializados e de ter sido testada até à exaustão, é melhor recusar pois nunca se sabe. Até porque a hipótese de apanhar a gripe e comprometer quer a própria saúde quer o serviço que prestam ao resto do pessoal é absoluto non sense.



Há quem tenha medo de agulhas, eu continuo a achar que a estupidez é bem mais perigosa.

20 Outubro 2009

Opiniões de 1ª e de 2ª

Anda tudo louco com as declarações de Saramago. Para que fique claro, não gosto da sua escrita - não me entendo com 2 páginas sem pontos finais - e tenho-lhe um rancorzinho de estimação por achar que exploração espacial é desperdício de dinheiro.

Ainda assim, correndo o risco de ser tão criticada como ele o tem sido nos últimos dias, concordo em pleno com "as Cruzadas são um crime do Cristianismo, porque morreram milhares e milhares de pessoas, culpados e inocentes, ao abrigo da palavra de ordem "Deus o quer", tal como acontece hoje com a Jihad (Guerra Santa)."

Tal como ele, acho que "Nós, os humanos somos muito mais misericordiosos."

Acho também que "Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus."


No que me diz respeito, a relação que cada um tem com a igreja e/ou com Deus, é consigo. Não posso é deixar de reparar que a tolerância, ou falta dela, nesta matéria parece fazer-se só num sentido - podes falar desde que não fales mal.

Curiosa a semelhança com a Lei da Rolha de Rui Rio.

12 Outubro 2009

A gente vai continuar

Não há muito a escrever. O meu estado de espírito é igual ao vazio do que há para dizer.

Para alguns, agora é a fase de arranjar bodes expiatórios, culpar os panfletos ou ter esperança hipócrita que as coisas vão mudar como se 8 anos não tivessem sido já suficiente prova de que ficará tudo na mesma. Quando há falta de coragem, de tomates até como se diz no meu Porto, para fazer o que é preciso ser feito, para mudar o que precisa ser mudado, de lutar pelo que se acredita, as desculpas são um consolo.

Créditos a quem de direito, chegou-me esta pequena pérola através da JS Porto.




Há formas e formas de lidar com esta derrota, a minha é fazer um luto, sem desculpas nem consolos, pelo que aconteceu e pelo que vai acontecer. Mas de uma coisa tenho tanta certeza como tenho que o Porto merece melhor que isto que lhe fizeram - enquanto houver estrada pra andar a gente vai continuar.

E sei que o R., o Pedro e a AL estão comigo.

08 Outubro 2009

Tripeira até que a morte nos separe

Há 8 anos que estou à espera da oportunidade que vou ter no próximo domingo de tirar o homem que está na Câmara e pôr lá a mulher que quer ocupar aquele lugar.

Há 8 anos que vejo a cidade que me corre nas veias a definhar, a entristecer e, lentamente, a ser abandonada a um deus dará e que, passados 8 anos, não deu absolutamente nada.

O Porto que tenho debaixo da pele é mais do que as marteladas do S. João, a altura da Torre dos Clérigos ou o assédio das vendedeiras do Bolhão. É mais do que janelas da Rua da Fonte Taurina, os paralelos da Rua do Almada, o estádio do Dragão aos berros, a areia da praia do Homem do Leme. É muito mais do que a pata do leão em cima da águia, que o ferro da ponte de D.Maria, que os pináculos da Sé, a porta da igreja dos grilos, o meteorito da Casa da Música, mais que a horrenda Torre das Antas, o edifício transparente, os aviões em Setembro ou as luzes em Dezembro, do que o cheiro das velas do Prado do Repouso, as cores das roupas lavadas a pingar das janelas na Reboleira, o tamanho dos rebites da Ponte D. Luiz, o molho da francesinha, os sinais da sueca no Marquês, o barulho da água na Foz do Douro, a festa de um campeonato do FCP, o frio do nevoeiro ou o sotaque do Norte.

O Porto está velho, está pobre e podre. Está a cair aos bocados e o pouco que sobra de vida latente é escorraçada como um cão vadio ou deixada morrer por inanição. A altivez da cidade esvaiu-se, se alguma coisa resiste é por falta de resignação ou porque alguma história ainda lhe vale.


Há 8 anos que o Porto do único responsável por esta sina não é o meu. O Porto do autor desta miséria resume-se ás resmas de papeis de relatórios, contas e empréstimos, aos vários acórdãos judiciais, aos números dos lotes de bocados de terrenos e às quantias do deve e haver. Resume-se ás birras, aos despeitos e aos alcatrões nas ruas na última hora.

E porque faço parte do Porto e ele parte do que sou, no domingo vou fazer por ele numa cruz o que ele fez por mim a vida toda.

01 Outubro 2009

Que vá pela sombra

É o que desejo a José Manuel Fernandes que hoje anunciou a sua saída da direcção do Público. Se foi convidado a sair não se sabe, mas que já vai tarde, vai.



Pode ser que agora o Público ainda vá a tempo de recuperar o estatuto de jornal de referência que tantos anos lhe pertenceu.

29 Setembro 2009

Presidência da República for Dummies

Acabo de ver, pela 2ª vez, a comunicação do Cavaco ao país e ainda não estou bem em mim. Uma absoluta vergonha é o primeiro comentário que me ocorre, mas ainda a quente tenho já a certeza de que o Sr. Cavaco Silva, Presidente de Portugal, não está à altura do cargo que ocupa.

Se estivéssemos em guerra, este homem seria a nossa derrota. Confunde liderança com disparar para todo o lado, alimenta boatos quando quer ser esclarecedor e quando devia fazer silêncio, atira os pratos os chão.


Já tinha dito que estou orfã de presidente desde que Cavaco foi eleito. Não pensei é que algum dia fosse bater tão em baixo.

E se ele se fosse embora?

27 Setembro 2009

Eu vou votar, e tu?

Porque o colar de pérolas e a malinha Louis Vuitton não fazem o meu estilo, amanhã vou votar contra a Manuela Ferreira Leite.

E tu?

18 Setembro 2009

He's a maniac, maniac on the board

Esta manhã acordou com duas notícias de conteúdo idiota.

Aparentemente um e-mail trocado entre jornalistas do Público diz que foi Cavaco Silva que mandou falar sobre as escutas em Belém - a outra notícia de conteúdo idiota, fica para outro post é sobre os professores e o apelo ao voto útil contra o PS.

Até aqui nada demais, se calhar o Palácio de Belém andou mais sossegado no Verão e Cavaco Silva resolveu spice things up. A absoluta cretinice vem da parte do director do Público, José Manuel Fernandes, para juntar à pilha de outros argumentos pelos quais esta personagem me desagrada profundamente.

Então não é que o homem, director de um jornal, veio dizer que o e-mail em causa, apesar de nunca o ter lido, é forjado mas que para o e-mail (segundo ele, que nunca o leu, forjado) ter sido divulgado só pode ter sido obra do SIS que está sob alçada do Primeiro-Ministro.

Mas está tudo maluco? José Manuel Fernandes podia ter tatuado na testa "Olá. O meu nome é JMF e já não gosto do primeiro-ministro há 4 anos" e à sua passagem toda a gente lhe diria "Olá José!" que era muito, mas muito mais discreto.

15 Setembro 2009

Rest in peace Johnny

Sylvia?
Yes Mickey?
How do you call your lover boy?
Oh loverboy...
And if he doesn't answer?
Come here loverboy...
And if he still doesn't answer?
I simply say... baby...

Johnny and Baby
Dirty Dancing (1987)

Morreu um dos ícones da minha infância, Patrick Swayze. O tempo passa e de que maneira.

14 Setembro 2009

Le 8mm critique - Inglorious Basterds

(Eu ainda não aprendi a falar de um filme sem falar dele de facto portanto cuidado com os spoilers nas próximas linhas).

Há já algum tempo que não fazia nenhuma 8mm critique mas não podia deixar de as reatar com o mais recente filme de Quentin Tarantino.

Ora bem, estimar o sucesso de um filme de Tarantino com Brad Pitt sobre o assassinato de Hitler é mais ou menos como apanhar peixes num balde, fácil demais. Mas se até se poderia prever um certo marasmo porque é mais do mesmo, a cada cena que se desenrola é um momento cheio de detalhes deliciosamente preversos e de diálogos absolutamente fabulosos. Tarantino é tão maravilhosamente manipulador que é inevitável sentir simpatia por um oficial das SS conhecido por Caçador de Judeus e um certo carinho pela forma meiga com que o Aldo Raine desenha com uma faca a suástica na testa dos inimigos que não mata.

Apesar de existir um certo pudor em rir com a 2º Guerra Mundial, a verdade é que o sarcasmo e a caricatura estão de tal forma presentes que é impossível não rir e até as cenas cheias de sangue e de violência gratuita são de um entretenimento extraordinário. Imagine-se um filme onde se sabe exactamente o que vai acontecer e que mesmo assim não faz a mínima diferença. As personagens e as linhas que as ligam umas ás outras valem pelo filme todo e mesmo que Hitler não morresse no fim continuava a ser simplesmente brilhante.

O Momento: Quando o Aldo, the Apache, dá uma cabeçada ao Col. Hans Landa. Não há palavras para descrever a cena.

A Frase: (é muito complicado escolher uma quando são quase todas verdadeiras preciosidades):
Hans Landa: Monsieur LaPadite, to both your family and your cows I say: Bravo.
Hans Landa: I love rumors! Facts can be so misleading where rumors, true or false, are often revealing.
Aldo Reine: You see we're in the business of killing Nazis and boy business is booming!
Aldo Reine: Your status as a Nazi killer is still amateur. We all come here to see if you wanna go pro.

05 Setembro 2009

Quando a esmola é grande

O pobre desconfia. Apreciadora de provérbios, este em particular por recriar tão bem a realidade é um dos meus preferidos.

Quero com isto dizer que - como é relativamente imediato de concluir se pararmos para pensar não 10 mas apenas 3 segundos - não acredito que o Governo, o PS ou até Sócrates tenha alguma coisa a ver com a suspensão, que peca por muito, mas mesmo muito tardia, do chorrilho de imagens e som que ás sextas-feiras ocupa a TVI e que dá pelo nome abusivo de Jornal Nacional de Sexta.

Se não fosse grave a quantidade anormal de pessoas que ainda não pararam para pensar os 3 segundos e estão fartas de dizer e escrever porcaria, isto daria uma comédia porque ninguém - sério e no seu perfeito juízo claro está - pode alguma vez sentir saudades daquele pseudo bloco informativo apresentado por tamanha insolência.

O alívio que se vai fazer sentir por todo o país beneficia toda a gente, mas porque nem tudo o que reluz é ouro, a quem é que terá saído o brinquedo do Kinder Surpresa?

28 Agosto 2009

Happy Mars-not-close Day!

Agora que se confirma que afinal o mito urbano de que Marte estaria ontem tão perto da Terra que se veriam duas luas, pode ser que para o ano já não se reenviem os e-mails que andam por aí a circular.

É que, people, se Marte estivesse tão perto como a Lua, já há muito que não estaríamos cá para mandar e-mails.


Entretanto, podem ir ao olhando para o céu nocturno na mesma, vale sempre a pena mesmo sem Marte tão perto.

24 Agosto 2009

O povo e a sua memória curta

A importância de dizer não à Manuela Ferreira Leite prende-se tão só com o facto de, bem, sem querer alarmar ninguém, apesar de se tratar de uma catástrofe, ela poder ganhar.

É que mesmo com a quantidade abismal de tiros no pé que tem dado, pior do que os que atacam de fora, são os que corroem por dentro. Sabem o que aconteceu da última vez que a esquerda se dividiu toda, quais claques do Benfica que incendeiam as sedes umas das outras? Isto:


O povo é soberano, só é pena que tenha uma memória tipo peixe.