07 Março 2012

Acknowledgments

Porque sozinho ninguém vai a lado nenhum.
Acknowledgments
”Not everything that can be counted counts, and not everything that counts can be counted.” W. B. Cameron, 1963
Simply put, and as romantic as it sounds, this project would not have been possible without the people that I thank in the following lines. They have been here with me, in many ways, since the very beginning of this journey.
First and foremost, I am deeply grateful to my supervisors Jarle Brinchmann and Catarina Lobo from whom I have learned much more than I can possibly grasp. Catarina has been a part of my path ever since I took my first steps in astronomy, as a young undergraduate. I thank her dedication and support throughout these years, while I tried to find my way through science.
More than a supervisor, Jarle has been a mentor. I feel lucky to have had the guidance of such a brilliant scientist and a wonderful person. The invaluable lessons he has taught me from day one, never settling and always questioning, are the cornerstone of the astronomer I aim to become. His endless patience, enthusiasm and care when teaching me, from the most basic lines of code to the most complex scientific analysis, is something I will definitely nurture for years to come, along with the sense of wonderment he embedded in me. Thank you Jarle.
I thank my parents from the bottom of my heart. They have always, unconditionally, encouraged me to follow my dreams, especially this precious dream of becoming an astronomer. They have taught me where there is a will there is a way, always cherishing my silliest ideas and showing me how to make the best out of them. Thank you for your tremendous support and above all for your inspiration.
I thank Rupes, who has been holding my hand for more than a decade now. He has always been there, challenging me, dreaming with me, every step of the this bumpy way. I imagine that putting up with me when I started rambling about galaxies was sometimes not easy, but you always listened. I treasure how you always found a way to make me smile and a word to comfort me. Thank you for being my safe haven.
My friends have been the backbone of my life, especially in the last few years. Ana and Pedro, my partners in crime, thank you for bearing with me in the most turbulent of times, never leaving my side. I thank you for the care, for the non-sense, for fighting against and with me never scratching our friendship and for those memorable moments – whether on stage, at a dinner table or in the middle of a forsaken road with our helmets on. My Twine Luísa, with whom I have been sharing the ups and downs of this learning process ever since I started my academic voyage, and João, have kept me anchored to what really matters in the later stages of this work. I am eagerly looking forward to fulfill our long-lasting goal of raising a glass in Times Square, as I am to break ice with a spoon for many more winter drinks. I have also been lucky to have made new friends during this time – with whom would I discuss astronomy as passionately as football if not with my Italian friend Daniele? – and to have deepen ties with old ones, seeing them grow inside and outside astronomy - I believe we will be sharing stories over many RENA dinners yet to come. I am truly surrounded by beautiful people, places and stories, including an angel, a warmhearted city, a half-smile and a wonderfully crazy family.
I also want to leave a heartfelt thank you to Doctor Alice Marques. With her help, I am here, now, presenting this work and I am finally able to look back with a smile.
I acknowledge CAUP, my host institution, and I thank Sterrewacht Leiden for the valuable support during my stays in the Netherlands. In particular, I would like to thank Professora Teresa Lago for pointing me towards the right direction ever since I had my very first astronomy class and my collaborator Mercedes Filho with whom I expect to be working and sharing successes in the coming years. I thank in a very special way Joana Ascenso who has been not only a great friend but a teacher, and Joana Sousa, with whom I started this experience a few years ago and have seen our friendship grow much more beyond astronomy. Along with Joana and Joana, I also shared my office with Rui, Bruno and Jorge. I will certainly miss our time together, our conversations, our shared fears and our unbeatable certainties. I also thank my very good friend Nelma for her support in critical moments, being a right-hand throughout this time.
Without music, life would be a mistake, Nietzsche once wrote, and indeed music, like astronomy, is part of what I am. I thank Coral de Letras da Universidade do Porto for allowing me to sing some of the best music ever composed and for giving me great moments of joy after a day’s work. I would also like to thank my good friend and composer Daniel for one of the most exquisite experiences that came out of this thesis: a music made from Figure 2.16. Inspiration definitely comes in many forms, shapes and colors. Just like galaxies.
The last few years have been nothing short of a roller coaster ride – they have taught me more about science, myself and others, than I could possibly imagine. I cannot wait for the rides that are still yet to come.

20 Dezembro 2011

Carta Aberta ao Sr. Primeiro Ministro

Não tenho escrito tanto quanto a vontade de o fazer nem tão pouco tenho exclamado tudo o que há para exclamar do muito particular ponto da história de Portugal em que estamos.
No entanto, não podia deixar de partilhar a Carta Aberta ao Primeiro-Ministro que circula nas redes sociais por considerar que expressa muito bem um sentimento decisivo nestas alturas: revolta.


Exmo Senhor Primeiro Ministro

Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome "de guerra". Basilio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.

Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.

Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido.

Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida. Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais. Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de trabalho. "És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui dentro." - disseram-me - "Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado alto na redacção". Fiquei.

Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o desemprego. "Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom curriculo, arranjarei trabalho num instante". Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade. Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira 'congelada'. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como "nativa". Tinha como ordenado 'fixo' 485 euros x 7 meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O meu dia, senhor primeiro ministro, só tinha 24 horas...

Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio. Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a besta. Conheci o desespero. Conheci - felizmente! - também outras pessoas que partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor.

Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim, tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, senhor primeiro ministro. Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.

Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu renault clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiro-ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar...

Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores - e cada vez mais raros - valores: um ser humano em formação.

Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca.

Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, feliz natal OU feliz ano novo à sua escolha, senhor primeiro-ministro

e como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus

Myriam Zaluar, 19/12/2011

05 Setembro 2011

Menos duas torres

A propósito do 11 de Setembro tenho a revelar que, a marcar a década dos atentados, me continua a intrigar a razão pela qual a morte de 3 mil inocentes nas torres tem nitidamente mais valor que a morte de mais de 100 mil inocentes só na guerra do Iraque. A estes não há homenagens, desta chacina não há relatos de "era um dia normal...", desta história que dura há 8 anos não há vídeos com músicas a puxar ao sentimento, não há bandeiras desfraldadas em tudo o que é canto nem fotografias em tons sépia com frases escritas em Helvetica Neue.

E ainda dizem o mundo mudou. É mesmo tudo igual menos duas torres.



12 Julho 2011

Dá-me uma tampa

ou várias e eu prometo que não fico chateada.

É que, sabes, há um menino, aliás, um doce, chamado Tomás, que precisa de 20 toneladas (sim, toneladas) de tampinhas para conseguir uma mão mioelétrica.

Se não sabes como funciona a troca de tampinhas por aparelhos, deixa-me explicar-te, é simples: as tampinhas (que não podem ser recicladas juntamente com a garrafa) são vendidas a empresas de tratamento de plásticos e o dinheiro da venda é usado para ajudar quem precisa com o que precisa, como já aconteceu com o Rodrigo.

Acho que já deves ter ouvido falar desta campanha e provavelmente nunca soubeste muito bem como funcionava, mas agora já sabes. Se também tens dúvidas sobre se é possível juntar tanta tampinha ficas a saber que um garrafão de 5L cheio pesa cerca de 750 gramas (sim, gramas) e que ontem os pais do Tomás entregaram 285 kg (sim, kilos) de várias pessoas que foram juntando tampinha a tampinha.

Se ficaste a pensar, deixa-me então dizer-te que neste processo não há nada mais simples: só tens que me dar uma tampa, eu trato do resto. Pode ser?




Eu agradeço. E o Tomás também.

11 Julho 2011

Saudades

De dizer asneiras, de mandar vir, de opinar, de responder torto, responder direito, de escrever, de apagar e de não apagar, de pedir, de agradecer, de achar que tenho razão, de ser contrariada, de comentar os comentários, de ler, de provocar, ser provocada. Saudades de partilhar.


Voltei.

01 Janeiro 2011

Passado

Fiquei algum tempo a olhar para o 'last post published 15-Set' quando abri o Blogger. Deve ter sido o período mais longo que fiquei sem escrever, sem mandar vir, sem me confessar, me espantar, indignar ou ruminar a propósito de alguma coisa, com ou sem importância.

Assunto não falta, mas o bicho que me faz escrever ficou como eu pouco depois do último post, primeiro obsessivo, depois doente e por agora ainda está no longo caminho, cheio de degraus, até ficar bem. Em nenhuma destas etapas lhe apeteceu morder-me. Até hoje em que deve ter subido algum degrau especial.

O balanço do ano velho é simples: em muito foi muito bom, em muito foi muito mau. Foi o ano das experiências, em que decidi metaforicamente não morrer ignorante e em que experimentei o que de novo a vida me foi dando a experimentar. Furei, finalmente, as orelhas. Fumei, detestei. Fiquei ruiva por alguns meses, pintei as unhas de vermelho pela primeira vez. Construi outro blog, este directo dos meus olhos e da minha imaginação. Joguei guitar hero e continuo sem entender. Fiz origami, gravei um disco, bebi uma abadia, escrevi uma tese de doutoramento.

No meio destas e outras primeiras vezes senti de tudo, vi de tudo e vivi de tudo mas acima de tudo aprendi muito - que há pessoas preciosas sem as quais deixamos de conseguir viver, que tudo neste mundo é relativo e que não se deve andar com uma Honda CBR 600 RR em paralelos mais de 20 metros.

Que as experiências continuem! Bom ano meus caros.

15 Setembro 2010

Circo

Não é que tenha deixado de ter assunto para escrever, só aconteceu que comuniquei de outra forma.

Depois de uma passagem muito curta por Londres, cheguei ao Porto a pensar que o Porto tinha todos os ingredientes para ser como Londres, a começar pelo nevoeiro e pela gente simpática. Depois a aura de optimismo desvaneceu-se quando vi nas notícias o protesto dos estudantes do politécnico que irromperam pela cerimónia de abertura do ano lectivo que contava com a presença de Mariano Gago e de José Sócrates. Se tinham ou não razão não sei, mas o sorriso de gozo com que os estudantes foram recebidos pelas personalidades da primeira fila foi desconcertante.

É por este desinteresse latente e transversal que o Porto, ou Lisboa pela mesma razão, ainda estão a anos-luz de cidades europeias como Londres ou Paris. Aliás, basta ver pela abstenção em voto após voto. O desinteresse é tal que nem para fazer o raio de uma cruz num papel - mais fácil é virtualmente impossível - as gentes deste país se deslocam uns metros. Não há mobilização para nada, os poucos que ainda vão dando o corpo ao manifesto são dados como malucos e quando se trata de abaixo-assinados se for daqueles que se mandam pela internet, tanto melhor.

Houses of Parliament, Londres


Apesar de ir fazendo a minha parte, provavelmente contra mim falo - há um momento em que se acaba por ir com a corrente, em que se olha à volta e se encolhe os ombros. Mas depois passa-se em frente ao Houses of Parliament e vê-se permanentemente gente acampada à porta em protesto contra, por exemplo, a participação do Reino Unido na guerra do Iraque. Estão lá dias a fio, milhares de pessoas passam de um lado para o outro e, curiosamente, ninguém se ri.

Aqui rimo-nos de tudo, assim é mais fácil disfarçar o embaraço, desvalorizar a opinião alheia e de mãos a tapar os ouvidos fingir que está tudo igual. O problema é que com tanto riso forçado cada vez mais isto parece um circo que não só teima em não acabar como a cada número entorpece mais um bocadinho.

18 Julho 2010

4 anos

4 anos depois, sem que consiga entender como, o Rui Rio continua no Porto.

06 Julho 2010

A incomodar desde 1981

Contava eu que este boteco estivesse, tal como eu, parado na actividade blogueira (e eis senão quando acabo de aprender que blogueira existe no dicionário e ao que parece sou uma bloguista) mas afinal parece que estava enganada.

Há gente um bocadinho aflita por se fazer ouvir mas só agora, três dias volvidos desde que entreguei a minha tese de doutoramento o que me deixou ligeiramente desafogada, mas ao qual irei dedicar um post próprio (ou assim espero), consegui dar-lhe a devida atenção. Como não quero que falte nada aos meus leitores, vou compensar com o destaque merecido.

Ora então disse o Café Torrado no post Filha da putice à solta o seguinte:

café torrado said ... (30/6/10 01:27) :

sinceramente diz-nos uma coisa , aos teus leitores:
- Não tens mais nada que fazer?
- Tipo um Plot novo para editar duma qualquer nebulosa?
-ou qualquer outra coisa que não seja entulho na web?

No que, na falta de moderação da minha parte pelas razões acima citadas, foi secundado pelo comentário no post Casamento entre pessoas pela Maria Joana:

Maria Joana / Amigo(a) do(a) Café Torrado said ... (1/7/10 21:49) :

Que bonito...Quase verti uma lágrima...
E deixares o(a) Café Torrado ter liberdade de expressão também? Parece-me a mim que não lhe soubeste dar uma resposta à altura...

A quem entretanto já tinha respondido a um comentário, no mesmo post.

Ao que parece tenho uma comandita de gente incomodada e nem sequer falei dos professores. Há quem leia, quem não concorde (com nada pelos vistos), a quem eu incomodo com os meus relambórios que são entulho na web, quem ache que a minha opinião e a minha crítica não valem um chavo, quem ache que o meu lugar aqui é dar respostas à altura. Há quem ache que me conhece só pelo que escrevo, quem não goste e quem de facto gaste do seu tempo para me fazer saber isso, através de uns comentários com algum sangue na guelra mas, convenhamos, pobrezinhos.

Ora bem, não me apraz comentar por ser relativamente redundante - Não tens mais nada que fazer? Tenho claro. O Café Torrado não? Pois. Entendo. - de qualquer modo, para que não haja margem para dúvidas e porque, isso sim, é para ser levado a sério - os plots? São de galáxias, não de nebulosas.

13 Junho 2010

Filha da putice à solta

A filha da putice não é genética mas é crónica: ou se controla ou é-se controlado por ela. E há cerca de um mês atrás, em pleno Dragão num Porto-Benfica, a filha da putice estava em grande.

Claro que com algumas excepções (felizmente), confundiu-me por momentos o que lá estavam a fazer muitos energúmenos que grunhiam em jeito de riso quando alguém queimava uma camisola do Benfica e latiam de excitação nas faltas cometidas sobre os jogadores do Benfica. Aqueles otários não tinham ido ver um jogo de futebol, nem tão pouco o Porto ganhar, apesar de que seria sempre um bom dano colateral. Tinham ido ver sangue, preferencialmente benfiquista e é aqui que começa a minha indignação.

Ultrapassa-me por completo como se pode preferir perder tempo a odiar alguma coisa em vez apoiar o que se gosta, o que nos faz pele de galinha, o que nos faz gritar e ter alguns momentos de puro prazer sem nada em troca. Não entendo que se prefira a miséria alheia ao próprio sucesso, não entendo porque aplaudiram um golo do Braga que punha definitivamente o Porto fora dos lugares da Liga dos Campeões só para que o Benfica não ganhasse. Não entendo esta parvoíce, este estado idiota de prioridades trocadas, em que ir para os Aliados de navalha em punho para que os mouros não possam fazer a festa é que vale a pena e chegar a casa depois da missão cumprida (e sem que nada tenha mudado - sim meus caros, o Benfica foi campeão na mesma) dá, ao que parece, algum sentido de conforto. Se calhar aqui ficaria bem um 'é só futebol'. Mas não me parece que reduzir o futebol sirva de muito porque se não fosse pelo futebol era pelo berlinde, se não fosse pelo berlinde era pela gravata do José Rodrigues dos Santos.

O fanatismo que tanto se critica em grupos religiosos, ó que retrógrados, e a ânsia de ver humilhação em jeito de espectáculo, quais gladiadores, vem do mesmo sítio da lealdade canina responsável por episódios desta violência gratuita, física e verbal, mas que, por algum motivo que desconheço, é facilmente perdoada porque 'é só futebol'. Não, não é só futebol. Dentro de um estádio estão pessoas, e não mecos, tão responsáveis pelas suas acções num estádio, como numa igreja ou no autocarro. E mesmo que o ambiente em estádios, igrejas ou autocarros, seja por vezes propício a um certo excesso, não se ganha um manto de inimputabilidade como nos jogos de computador, dava jeito mas também não há respawn na vida real.

Mas se por motivos de força maior a filha da putice acabar por nos controlar, tenhamos pelo menos o cuidado de não a deixar à solta porque há sempre quem apenas queira ver um jogo de futebol. Mais nada.

28 Maio 2010

Comer e chorar por mais (Edição 2010)

Update: um ano depois, voltaram. Cerejas do Ruival Edição 2010!

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(Post original publicado a 26.05.2009)

É isso que acontece com as cerejas que tenho comido ultimamente - dizer que são das melhores cerejas que alguma vez comi roça o eufemismo.

As cerejas Quinta do Ruival fazem inveja às outras cerejas todas mas de tal forma que as outras cerejas deviam escrever num papel "um dia vou ser como as cerejas do Ruival", e pregar à cerejeira para de manhãzinha, mal bate o sol, repetirem em voz alta e todas juntas "Eu quero ser uma cereja do Ruival!" para não se esquecerem do seu propósito mesmo que saibam, no seu íntimo, que nunca irão lá chegar.



Como tudo que é requintado, só estão disponíveis mediante encomenda. Cada uma delas, escolhida (literalmente) a dedo, é uma preciosidade de tal modo que é quase pecado comê-las de tamanho que é o regalo para os olhos.



Para saber como encomendar estas obras de arte basta enviar e-mail para
cafemoido@gmail.com
e será devidamente encaminhado para as melhores cerejas que alguma vez foram produzidas pela natureza.

E o melhor? É que nem sequer estou a exagerar.

14 Abril 2010

Palhaçada por palhaçada

Em plena escrita filosófica sobre como "galaxies are for astronomy what atoms are to physics" (Sandage 1961), ocorreu-me a tolerância de ponto no próximo dia 13 de Maio apenas e só porque o chefe do Estado do Vaticano vem cá.

Podia dizer que nada tenho contra o Papa - mas seria mentira claro, como aliás se pode confirmar aqui e aqui - e que a culpa é de quem concedeu, num estado laico por sinal, tolerância de ponto só porque ele cá vem.

Mas já que o óbvio parece não funcionar, porque não dar tolerância de ponto no dia da final da Liga dos Campeões? Ou no dia em que a ISS é visível de Portugal? Ou nos dias do Super Bock, Super Rock? Ou quando o Benfica for campeão daqui a umas semanitas?

A sério, palhaçada por palhaçada, porque não?

19 Março 2010

The End

É triste. O Ano Internacional da Astronomia chegou ao fim e, confesso, é triste. Se mais uma pessoa no mundo ficou a olhar para as estrelas, então já terá valido a pena, mas a melancolia não me larga. A vontade de continuar a mostrar as estrelas, as anãs brancas, supernovas, as nebulosas, de emissão e as planetárias, as galáxias, espirais e elípticas, os enxames de estrelas, os enxames de galáxias, os buracos negros, os filamentos, a matéria negra, até os planetas, de mostrar o Universo ou simplesmente a minha paixão? Não vai passar.



E é com sentimento de dever cumprido que leio o meu nome algures no meio deste agradecimento, mesmo não havendo nada a agradecer. Mas também é com um nó na garganta que vejo agora uma das homenagens mais bonitas feitas à Astronomia, ao amor da minha vida:





21 Fevereiro 2010

Fastio

É a primeira palavra que me ocorre dizer sobre o ódio de estimação do Porto ao Benfica. Entenda-se, claro, que me refiro à maioria dos adeptos, não à totalidade. Ainda há gente inteligente. Mesmo no Porto.

Acabada de chegar do Dragão depois de um Porto-Braga, não consigo não pensar na imbecilidade atroz da esmagadora maioria dos adeptos do Porto que, alegremente, saltavam em prova do seu anti-lampionismo e entoavam a plenos pulmões o clássico insulto ao Benfica.



Entendo o fenómeno do futebol, também eu tenho os meus exageros e os meus desvarios, mas não consigo, por mais que tente, entender esta azia que o Benfica provoca ao Porto tão intensa que leva a que o Benfica seja sempre carinhosamente lembrado mesmo que Porto esteja no Japão, numa final da intercontinental, contra uma equipa sul-americana onde o Benfica só participou a ver o jogo pela RTP ou a ouvir o relato pela Antena 1.

Será assim o Benfica uma ameaça de tal dimensão? É que, bem, o sangue que me corre nas veias é vermelho, sou benfiquista até à medula, mas nem eu falo assim tanto do Benfica. Aliás, os 6 milhões de benfiquistas todos juntos não falam assim tanto do Benfica.

Será amor?

07 Fevereiro 2010

Trust no one II

Um ano volvido e volto a constatar que aqueles que julgais que vos são próximos, aqueles que julgais conhecer e que, inocentemente, dizeis serem da vossa confiança, são capazes das mais elaboradas façanhas sem que disso deis conta.

Os melhores amigos do mundo voltaram, mais uma vez a deixar-me sem palavras. E, não fosse eu ateia diria, só Deus sabe como isso é complicado. O meu dia foi especial por tê-los comigo e mais especial por ter recebido tanto mimo desta gente a quem quero tão bem. Tenho sérias dúvidas se o mereço, mas não vou esquecer o número 1 de um camarote no Royal Albert Hall de onde vi o Varekai do Cirque du Soleil.

Nem a P29, a minha peça para 10 vozes a cappella, um original Daniel Moreira. Nem a ilustração da P29, as minhas galáxias, um original Ana Anahory.



Posso não vos merecer, mas adoro-vos muito.